Bolsonaro se negou a ajudar o Nordeste e chamou todos de Paraíbas

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Por Hylda Cavalcanti

Ex-aliada de primeira hora de Bolsonaro e seus filhos, hoje rompida com o Governo, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) denunciou, em live neste blog, há pouco, que levou ao presidente um projeto social para o Nordeste, mas ele recusou de pronto, sob a alegação de que não tinha compromisso com a gente nordestina, que classificou, segundo ela, de “paraíbas”. De acordo com suas declarações, Bolsonaro assim teria reagido: “Não vou fazer esse projeto para os paraíbas”.

De acordo com a parlamentar, tratava-se de um trabalho voltado para a busca de parceiras entre governo e iniciativa privada, de forma a reunir itens como a educação das crianças, geração de renda para os pais destes alunos e estímulo a técnicas de produção agrícola nos municípios mais pobres de Estados como Piauí e Maranhão.  “Eu implorei ao presidente, trouxe investidores para falarem com ele sobre o trabalho a ser desenvolvido, cogitei que a primeira-dama poderia vir a ser a madrinha do projeto, fiz de um tudo. Mas ele fechou todas as portas, disse que não gostou e ainda usou um palavrão que costuma usar”, desabafou.

Na opinião da deputada, existe uma grande mágoa de Bolsonaro com o Nordeste por ter tido pouca votação na região. “Ele é muito vingativo. E acha, agora, que o coronavoucher – nome dado ao auxílio emergencial de R$ 600 para ajudar na crise da pandemia aos mais carentes – é a forma que tem de chegar no coração dos nordestinos”, alertou.

A deputada, que continua no PSL, partido que Bolsonaro abandonou, ainda acusou o presidente de “tentar roubar a legenda” e não ter conseguido. “Eu sou o PSL, pessoas como eu, como o Luciano Bivar (numa referência ao deputado por Pernambuco, que é presidente e fundador da legenda, hoje também considerado um desafeto do mandatário do País). Segundo Joice, os bolsonaristas que hoje estão no partido fazem parte de um grupo que chamou de “ala focinheira, em que “o presidente quando quer, solta a focinheira deles para que mordam quem ele ordenar”. “Nós não, formamos uma direita racional e consciente, não fazemos parte deste grupo”, assegurou.

Hasselmann afirmou que o seu desapontamento com Bolsonaro e os filhos foi mútuo e acredita que se o presidente da República não tivesse os filhos na política “seria mais dedicado ao cargo que ocupa”.  “Se os filhos de Bolsonaro cuidassem cada um das suas vidas, o presidente teria mais liberdade para trabalhar. Mas ele precisa se preocupar em salvar os filhos da cadeia. Cada um possui uma complicação diferente na área jurídica e, com isso, o presidente fica sendo pressionado para livrá-los a todo instante. Ele precisa lembrar que há outros cidadãos no País que não os filhos que possui. Estes sim, pagadores de impostos e pessoas que precisam de um bom governo”, destacou.

A deputada também falou sobre o gabinete do ódio, que começou a ser investigado depois que ela deu um depoimento sobre o tema na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News. Os fatos terminaram levando à abertura de uma investigação solicitada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que resultaram em busca até mesmo no gabinete de um dos filhos de Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). “A opinião própria sobre uma pessoa é uma coisa. Eu mesma ataco muita gente, mas desafio qualquer um a provar que forjo informações e propago isso com uso do dinheiro público para tentar destruir desafetos. Isso é crime”, frisou.

Joice destacou que, apesar de se considerar rival do PT e do ex-presidente Lula, com quem já brigou na Justiça, considera que “nunca as investidas do PT fizeram o que o gabinete do ódio fez no País”. Ela destacou ainda que não é possível comparar os governos do PT com o de Bolsonaro ainda, e que é preciso esperar o final do governo para isso. Mas tem poucas esperanças de que seja uma gestão que dê certo. Mesmo assim, admitiu que embora Bolsonaro tenha cometido muitos erros, ainda o prefere a um retorno dos petistas ao poder.  “Apesar de todas as ressalvas, se me perguntarem quem eu apoiaria hoje entre o PT e o Bolsonaro, eu ainda diria que seria o Bolsonaro. Espero que em 2020 surja outra alternativa além destas duas, mas dependendo do que se apresentar, eu ainda ficaria com o governo atual”, afirmou.

Sem esconder sua mágoa, Joice disse que o presidente decretou guerra contra ela, ao lado dos filhos, de um modo covarde. “Chegaram a fazer uma campanha contra minha pessoa por causa da minha condição física. Fui chamada de porca e gorda. Foi tudo muito sujo, muito machista e nojento” relatou.

A deputada contou que chegou a adoecer, de tanto trabalhar. “Vivia dentro do Congresso Nacional, carregando o governo nas costas enquanto o presidente dormia e se divertia. Eu viajava o Brasil inteiro. Abri mão de muitas coisas pessoais, da convivência com meu marido e minha filha para ajudar o governo”, ressaltou.

Indagada se há corrupção no governo, embora afirmando que isso é coisa para a Justiça examinar, a deputada não escondeu sua desconfiança. “Quando há um filho do presidente que acumulou muito mais do que ganhava como é o caso do Flávio (senador Flávio Bolsonaro, do Republicanos-RJ) tem alguma coisa estranha. Quando vi isso acontecer, comecei a me preparar para a saída do governo”.

A deputada também afirmou que considera Fabrício Queiroz o homem bomba do governo Bolsonaro. “A movimentação nas contas do Queiroz de mais de R$ 2 milhões é muito estranha. Como é que um assessorzinho tem esse dinheiro? Talvez o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que deu a liberdade para ele com uma tornozeleira eletrônica, esteja muito interessado numa vaga no Supremo para ter feito isso”, destacou – numa referência ao ministro João Otávio de Noronha, que hoje preside o STJ e é cotado para ser indicado por Bolsonaro a um assento no STF.

Joice disse ainda que não tem como provar, mas sabe que Queiroz, na verdade, é um homem de confiança do próprio Bolsonaro e não do Flávio. “Eu só soube disso depois que saí do governo”, contou.

Perguntada sobre o que acha das ilações feitas sobre possível ligação de Bolsonaro com o assassinato da vereadora Marielle Franco, do Rio de Janeiro, a deputada afirmou que não vai ser leviana para falar algo a respeito, mas estranhou a forma açodada com que Bolsonaro reagiu às denúncias sobre o tema.

“O que acho desproporcional é a relação que o presidente teve quando disseram que o Carlos tinha alguma coisa com o crime. Ele ficou transtornado. Quando se é pego na inocência não se age assim. Não sei se ele estava sob o efeito de algum remédio na época em que se pronunciou sobre isso pela primeira vez, mas confesso que tive muito medo, naquele momento, da existência de alguma ligação. Medo dessa ilação vir a ser uma realidade.”

Questionada sobre os motivos pelo qual se iludiu, já que é conhecido o passado de Bolsonaro como um político truculento, a deputada disse que não esperava o comportamento que tem sido observado desde que ele assumiu o comando do país. “Eu sabia de caricaturas forjadas do Bolsonaro. A história da Maria do Rosário, por exemplo (numa briga em que se discutia na Câmara a questão de um estuprador de São Paulo, Rosário disse que Bolsonaro estava pensando com a cabeça do estuprador. Foi quando ele disse que não a estupraria porque ela não merecia). “Ele foi totalmente bobo na forma como lidou com a situação. Se tivesse se sentido insatisfeito, deveria ter procurado a comissão de ética da Casa para atuar contra ela e não dar a resposta que deu”, afirmou.

“Na época eu fiz uma crítica a ele na Revista Veja e ele me procurou. Conversamos, ele me contou que perdeu a cabeça e de certa forma acreditei naquilo que ouvi, que ele tinha sido atacado antes. Talvez porque eu queria acreditar que houvesse alguém que fizesse frente ao PT nas eleições, que pudesse ser um nome capaz de derrubar o PT no Brasil. E acreditei quando ele falou que tinha mudado”.

A parlamentar também admitiu ter se engajado na campanha porque acreditava que Bolsonaro poderia tirar o PT do poder e acabar com a corrupção no país. Hoje, diz ter dúvidas disso. Os gastos privados da família de Bolsonaro foram outro tema abordado por Joice na Live. “O povo não tem que ficar pagando essa conta”, destacou. Ela contou que paga do próprio bolso suas contas de restaurantes e outras despesas, devolvendo a cota parlamentar a que tem direito. Além disso, possui somente cinco funcionários no seu gabinete em Brasília e um em SP. “Meus funcionários não ganham salários exorbitantes, mas também não têm rachadinha, ou seja, não precisam dar parte do que recebem no final do mês”, ironizou.  Joice ainda disse que usa seu próprio carro em Brasília. A exceção está sendo o carro alugado e seguranças pagos pela Câmara para se locomover por São Paulo depois que recebeu ameaças de morte.

“Enquanto eu fui líder do governo estava tudo às mil maravilhas, sem compra de deputados. E não teve dinheiro não, eu economizei milhões para o governo. Conseguimos aprovar um projeto de crédito que livrou Bolsonaro das pedaladas e a Reforma da Previdência. Tudo apenas na conversa. Quando um deputado vinha pedir uma emenda para o seu município eu perguntava do que se tratava e negociava com o ministério correlato a demanda, fosse uma estrada, uma escola ou o que mais fosse.

Agora o Centrão é quem dá as cartas nas negociações do Congresso em nome do governo. Um peso pesado muito caro”, reclamou.

Segundo a deputada, os integrantes do Centrão “só querem negociar votações na troca por cargos para amigos”. “Se não tiver bilhão envolvido, não há negociação”.

A parlamentar lembrou que Jair Bolsonaro disse, no início, que iria fazer uma nova política e teria um Ministério técnico. “Mas o que ele está fazendo é o toma lá, dá cá, da mesma forma que fez a Dilma (ex-presidente Dilma Rousseff)”.

“Os líderes no Congresso e vários ministros são pessoas que estão com processos na Justiça, porque Bolsonaro pegou o pior da política e colocou no governo para se livrar de um impeachment na Câmara”. Em meio aos líderes, ela citou o senador pernambucano Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) como exemplo. “Fernando é um homem de fino trato, bem relacionado, mas não há como negar que também está envolvido em escândalos e já foi alvo de operações da Polícia Federal”, frisou.

A deputada também teceu comentários ao presidente da Embratur, o pernambucano Gilson Machado Neto, a quem critica por ter aumentado o volume cobrado nos seus shows depois que entrou no governo. “É obvio que essa influência que ele tem atualmente gera dinheiro no bolso. Ter essa atividade paralela, ser dirigente de um órgão público e abocanhar dinheiro na iniciativa privada, é algo temeroso. Não desgosto dele, não tenho nada contra ele, até fez um dos jingles da minha campanha, mas acho que se dobrou demais ao governo, no que não deveria se dobrar”, reclamou.

Joice é candidatíssima à prefeitura de São Paulo. Sobre sua candidatura, destacou que é “uma opção da direita racional, que conversa com o centro, que entende que o social não pode ser abandonado e que o dinheiro público é muito suado e não pode ser desperdiçado”.  Sobre a briga de Bolsonaro e Dória, ela disse achar que houve um erro no episódio, porque o governador de São Paulo deveria se preocupar com São Paulo e Bolsonaro com o País. “Nessa briga, vejo que só tivemos perdedores”, avaliou.

Para a parlamentar, quem polariza é Bolsonaro, que procura atacar Dória, como fez com Moro e tantos outros ex-aliados. “O presidente faz isso porque tem medo de pessoas que demonstram ter algum brilho e possam vir a ser sombra para ele. Por isso, parte direto para o enfrentamento”.

No cargo de secretária de Comunicação da Câmara dos Deputados, Joice foi responsável, nesta sexta-feira, pela demissão de 68 pessoas, que trabalhavam por meio de contratos de terceirização. Ela explicou que tomou a iniciativa “pelo bom uso do dinheiro público”.

“Tínhamos na Câmara, no setor, muitos trabalhadores, mas os resultados não vinham sendo os esperados e precisamos lembrar que estamos numa pandemia. Nada justifica manter dois contratos de terceirização com só 30% da produção desejada. Eu não consigo brincar com o dinheiro público”, argumentou.

A deputada também afirmou que torce para que o governo de Bolsonaro dê certo. “Eu quero que o presidente dê certo, que ele feche a matraca dele. Só não tenho esperanças de que isso venha a acontecer. As coisas melhoraram um pouco porque ele ficou mais calado e também porque tem capitalizado o efeito do pagamento do auxílio de R$ 600 na vida das pessoas mais pobres. Mas quem deu esse auxílio foi o Congresso, não ele. Fomos nós que conseguimos aumentar o valor para R$ 600, porque Bolsonaro queria que o valor ficasse em R$ 200. Agora fica se gabando disso para usar uma espécie de voto de cabresto”, acusou.

Do Blog do Magno Martins
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