Luiz Gonzaga! Minha gente…

História Gonzaguena

Estamos há poucos dias de celebrar mais um aniversário de Luiz Gonzaga, nascido em 13 de dezembro. E essa data sempre é favorável a um papo sobre a grandeza biográfica dele. O desafio é tirar do balaio histórico e separar o mito, do homem!
Há décadas que tenho uma leitura pessoal sobre o sertanejo de Exu, o homem da roça, o agricultor que auxiliava a mãe na feira, tentando vender as cordas de caroá, ou mesmo o seu pai, exímio tocador e reparador do fole de 8 baixos, instrumento que me impressionou quando eu soube que é muito mais difícil tirar acordes com esse instrumento do que com a sanfona de 120 baixos.
Das vezes que estive em Exu e no Araripe – Baixio dos Doidos, lugar onde ele nasceu – me recordo da primeira visita. A estrada ainda é de chão batido, até onde se encontra com a rodovia asfaltada.
Não foi difícil desenhar a cena descrita no livro “O Sanfoneiro do Riacho da Brígida”, onde relata que um jovem ainda menor de idade, no lombo de Pachola – uma burrica de estimação – cruzava aquele caminho nas idas e voltas para a cidade, e quando rumou em junho de 1930 para a maior aventura daquele jovem pernambucano. A distância entre Exu e Crato são 55 km, e uma altitude média de 800 metros para vencer a serra do Araripe, que separa Pernambuco e Ceará. Fico imaginando quais pensamentos o acompanharam, afinal saiu de casa por vontade própria “tangido”, porém machucado emocionalmente, pelos episódios recentes que vivera. As lembranças da namorada Nazinha – claro que ele gostaria de levar ela para se aventurar mundo afora – as marcas da infância dele, a amiga Priscila, a ternura de Januário e a firmeza de d. Santana, seus pais, além dos irmãos…a segurança do lar materno trocado pela aventura de um mundo desconhecido, sujeito a toda sorte de violência!
Com pouca instrução escolar, sem parentesco que o desse guarida, todo o seu patrimônio era um pequeno fole, que ele teve a ideia de ofertar e vender no Crato ou em Juazeiro. Não temos todos os detalhes de como se deu o roteiro, mas vendeu rapidamente aquele instrumento, e em Juazeiro – terra sagrada dos romeiros – embarcou em um trem, e viajou por 3 dias para Fortaleza, 600 km de sua terra natal.
Um misto de surpresa, alegria, medo do desconhecido, a cidade grande em contraste com a pequena Exu – tão árida – contrastando com Fortaleza, cidade de frente para a grandeza do oceano atlântico!
Eita choque cultural danado, né Luiz?
O objetivo? Ingressar no exército – a escola do pobre – como ele mesmo definiria anos depois. E lá se foram 9 longos anos.
Muitas histórias aconteceram, hoje registradas em diversas biografias. Não vou contar as que sei, afinal todas relatam o Rei e quero conhecer o homem, antes do artista!
Uma passada por Minas Gerais, onde teve acesso à música no formato profissional, a ida ao Rio de Janeiro de São Sebastião, onde foi sanfoneiro de rua, na praça Mauá, “para ganhar uns trocados” Antenógenes Silva, Domingos Ambrósio…o acaso de conhecer Xavier, que se tornaria seu compadre, os primeiros meses morando no morro, a paixão por Odaléia Guedes, a jovem menina artista da noite carioca e o romance que lhe deu a sonhada paternidade, dando o sobrenome a Gonzaguinha!
Calouro de Ary Barroso, na imponente Rádio Nacional, no edifício A Noite, prédio esse ainda na paisagem, felizmente!
Vira e Mexe é a música instrumental que projeta Luiz para as gravadoras, em 1941. Em 1945 grava Dança Mariquinha, com a voz dele! Em março de 1947, Asa Branca, o clássico nordestino, acende para o seu intérprete todas as estrelas da constelação do sucesso musical. As parcerias com ótimos compositores foi um achado supremo.
Antes, em 1946, o retorno para casa. A viagem de volta foi com o doce sabor da vitória, distante de todas as incertezas vividas duas décadas antes. Esse retorno, pelo mesmo caminho que havia trilhado anos antes, teve um planejamento todo especial: foi na boleia de um caminhão, parando nos vilarejos próximos ao Araripe, se passando por produtor cultural, em busca de sanfoneiros para contratar. Segundo seu próprio relato, haviam vários músicos, mas na sanfona “de Taboca a Rancharia, de Salgueiro a Bodocó, Januário é o maior”. A chegada foi descrita numa bela canção, provando que sempre é possível transformar momentos em poesia, e essa eterniza os acontecimentos. Luiz, Respeita Januário! A história não parou no passado, continuou até os nossos dias, a marca Gonzaguena, 107 anos depois. Parabéns, Luiz Gonzaga do Nascimento, o pernambucano do século!

Prof. José Urbano

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